“Times de estrelas podem ter desempenho catastrófico”, diz psicóloga

O Metrópoles conversou com a psicóloga Juliana Almeida, especialista em gestão de pessoas, e conseguiu respostas para algumas perguntas, como “por que o PSG de Lionel Messi, Neymar, Kylian Mbappé, Di María, Sergio Ramos, Verratti, Marquinhos, Donnarumma e companhia ainda não atendeu às expectativas do torcedor?”

Não é como se o Paris estivesse indo mal na temporada, mas com um elenco tão estrelado, os fãs de futebol estavam esperando espetáculos do time, grandes jogadas, gols incríveis, goleadas massacrantes… e não é isso que está acontecendo. O clube lidera o Campeonato Francês — algo que acostumou-se a fazer nos últimos anos — e é o vice-líder do Grupo A da Champions League, tendo empatado dois de quatro jogos.

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Juliana explica: “Por mais que gestores procurem sempre grandes talentos, na prática, times com muitas estrelas podem ter um desempenho catastrófico. Times precisam de pessoas com competências que integram e articulam para que os talentos possam brilhar. Isso ocorre com corretores de Wall Street, ocorre em equipes de bancos, e no esporte.”

“Jogadores que não são estrelas podem se tornar chave por fazer seu time ser melhor apesar de não serem os maiores craques. Isso é verdade no futebol, em que seleções com muitas estrelas tendem a ganhar menos jogos nas Eliminatórias das Copas”, continuou.

“Gosto muito do exemplo do Shane Battiers, no Miami Heat na NBA, em 2011″, lembrou a especialista. “Em 2010, o time quis construir o elenco dos sonhos trazendo duas grandes estrelas: LeBron James e Chris Bosh. Mas eles já tinham mais uma estrela, Dwayne Wade, e sofreram para sobreviver a temporada regular. Muitas estrelas quer dizer muitos egos, e muitos egos, muitos conflitos.”

Ela explica que a solução é “um jogador que esteja disposto a fazer as coisas que as estrelas acham que não está no nível delas, mas que são necessárias para coordenar os esforços e aumentar as probabilidades”. “Com a contratação de Shane, quando ele estava na quadra, todo o time tinha maior probabilidades estatísticas de marcar mais e ganhar. Para ele, o segredo é fazer as coisas que ninguém mais está disposto a fazer e ser um excelente colega. Ele equilibrou o papel das estrelas e o time foi um sucesso após sua entrada.”

Influência da falta de salário

Outro ponto da conversa com Juliana foi sobre algo que vemos com recorrência no futebol brasileiro: a falta de pagamentos de salário aos jogadores, comissão técnica e funcionários do clube. Ela relata que “os estudos mostram que pagamento é motivação na medida que a pessoa consegue cobrir as necessidades dela”.

“Após isso, fatores como qualidade da equipe, liderança, segurança psicológica, participação estratégica pesam muito mais no desempenho. Até por isso pessoas muitas vezes dispensam trabalhos que pagam mais porque se sentem realizadas cumprindo seu propósito”, afirmou a psicóloga.

“A ciência de gestão de pessoas aponta que a manutenção de desempenho passa por bem-estar no trabalho, incentivos da liderança — como confiança e mentoria, e possibilidade de dar sua opinião e se sentir ouvido. Cabe acrescentar, também, que recompensar apenas o desempenho individual pode aumentar o desejo de defender interesses particulares e não da equipe, comprometendo o resultado coletivo.”

Segredo do sucesso

Juliana desvendou e detalhou a fórmula mágica para ter um time, um elenco, em sintonia, com atletas, comissão técnica e funcionários felizes e cumprindo suas funções da melhor forma, a chave do sucesso. “Todos os atores possuem relevância em seu papel e a equipe só atinge resultados quando cada um contribui e percebe seu propósito para conquistar o todo.”

“Nesse sentido, a importância da gestão é fundamental para construir e manter a harmonia e coordenar as competências de cada um. Propósito possui dois elementos: o primeiro é individual e importa entender o quanto seu trabalho está alinhado com suas expectativas e valores individuais; o segundo, com quanto você contribui para o coletivo”, explica.

“Para que as pessoas mantenham em mente a importância de contribuir com o todo é muito importante que a gestão equilibre foco em pessoas e foco em resultados. O foco no resultado a ser atingido é essencial para deixar metas e contribuições individuais claras, mas os objetivos só são atingidos quando as pessoas se sentem prioridade.”

“Gosto muito do conceito de jogadores de impacto, vindo do esporte. Na prática, são pessoas que desempenham bem, mas que no jogo conseguem elevar os resultados da equipe toda porque jogam vendo claramente as oportunidades para todos”, concluiu.

Quem é ela?

Juliana Almeida é maranhense, natural de São Luís, mas se mudou para Brasília com 10 anos e foi na capital que formou-se em psicologia, pela Universidade de Brasília (UnB) e já começou a atuar na área.

“Trabalhando com gestões de pessoas, na prática, eu senti falta de argumentos que me permitissem mostrar que pessoas eram importantes para o alcance de resultados. E sentindo falta de conhecimento que eu pudesse confiar, ou seja, científico validado eu voltei para a UnB para cursar meu mestrado em como promover consenso nas equipes de trabalho e clima organizacional”, contou a psicóloga de 38 anos.

“Ser parte da transformação da vida de centenas de milhares de pessoas no trabalho me trouxe um senso de propósito e realização apaixonante.”

Depois do mestrado, ela ainda buscou o doutorado “para entender melhor as dinâmicas da liderança construtiva e da destrutiva também” e assim ela foi para Amsterdam, estudar na Amsterdam Business School. “Eu fui selecionada para fazer o doutorado sanduíche após ser aceitar no grupo de uma das maiores pesquisadoras do mundo de gestão de pessoas e liderança, a Deanne den Hartog.”

“Foram 8 meses muito produtivos com o desenvolvimento de estratégias alinhadas ao que tem de mais moderno no mercado com base em People Analytics e liderança, trazendo o conhecimento que realmente faz o jogo de empresas como o Google e o Netflix”, lembrou. “Após esse útil período, eu retornei ao Brasil para minha defesa e investi esforços em lecionar técnicas para fazer uma gestão efetiva em organizações e pesquisar dimensionamento da força de trabalho.”

Com tanto conhecimento e tanta coisa para falar, Juliana decidiu criar um perfil no Instagram para compartilhar tudo com quem se interessa pelo assunto e oferecer oportunidade de formação em português e com qualidade internacional. Lá ela conta mais sobre a sua trajetória, viagens, dá dicas e fala sobre gestão de pessoas.

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