Thyara Araujo

Órfãos. É assim que estão se sentindo os amantes da Troller após a Ford ter anunciado, na última segunda-feira (9), o fim da marca no Brasil. Em entrevista ao Toda Bahia, jipeiros baianos demonstraram tristeza e decepção com a perda do “ícone”, relembraram trilhas e passeios que ficaram nas lembranças e destacaram a preocupação diante da péssima notícia.

Evento com jipeiros realizado pela Troller antes da pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Representante do Clube do Troller Bahia, fundado em 2015, o engenheiro Marcel Motta, 32 anos, afirma que, atualmente, 255 pessoas integram o grupo. “Na verdade, não somos um grupo, mas sim uma família. Agora mesmo, estamos passando por uma situação em que alguns carros ficaram presos em uma trilha em Santo Amaro. Nós já nos organizamos para irmos lá ajudar”, conta.

Unidos nas alegrias e aventuras das trilhas off road, os integrantes do clube e proprietários da marca lamentam juntos a saída da Troller no país.

“A repercussão está muito forte nos nossos grupos do WhatsApp. Todo dia, se eu ficar um tempo sem olhar, chegam a acumular 600 mensagens não lidas, sendo todas deste assunto. Isso acontece nos grupos da Bahia e também de outros estados. Está um sentimento geral de tristeza e indignação. Esse carro tem um alto valor e ainda assim existia fila de espera para comprá-lo. É difícil entender por que a Ford tira um veículo desse do país”, lamenta o engenheiro.

Maria Luísa, de 6 anos, acompanha o pai Marcel Motta nas trilhas (Foto: Arquivo Pessoal)

Motta, que começou a fazer trilha aos 15 anos, também destaca as qualidades da Troller. “É o carro mais visto em trilha hoje em dia e o melhor para off road. Ele é versátil, você pode usar no dia a dia, em passeios e trilhas. Ele leva a gente pra onde qualquer outro carro não consegue nos levar. Existe caminho difícil, mas de Troller esse caminho se torna fácil”, diz.

Para ele, o carro “não vai morrer”, e pode virar uma lenda, como é o caso do Jeep Willys. “Acho que vamos ter dificuldades com relação a peças e também não teremos um novo Troller, mas quem já tem o seu carro não vende”.

Já Carlos Alessandro de Matos, representante do Jeep Clube dos Doidos, grupo fundado há 12 anos no município de Cícero Dantas e que organiza anualmente a Trilha do Caju, não teme muito a falta de peças.

“Motor e câmbio são da Ranger, então não há preocupação nesse sentido. O que será preocupante é a questão da suspensão do veículo. Mas pra gente, que faz trilha há muito tempo, é uma notícia triste. E a Ford não quer passar a patente, então ninguém vai poder fabricar mais o Troller”, afirma.

Fotógrafa Margarida Neide ao lado de seu Troller (Foto: Arquivo Pessoal)

Paixão que vicia

A fotógrafa Margarida Neide conta que sempre quis ter um Troller. “Era minha paixão. Comprei um em 2013 e fiquei com ele até 2016. Tive boas lembranças com ele e sinto saudades, mas continuo jipeira e hoje tenho um Jimmy. Mas quem tem Troller sabe que não é um carro qualquer, é um modo de vida. É um vício. Acho terrível a Ford deixar de vender no Brasil, porque é um carro esporte, bom para trilha”.

Para ela, quem tem jipe não gosta de outro carro. “Como sou fotógrafa, gosto de um carro que me leve aonde eu precise ir, então tem de ser 4×4 e forte”, completa.

De geração para geração

Gabriel e Gustavo encaram as aventuras com o pai Marcos (Foto: Arquivo pessoal)

Marcos Oliveira, 37 anos, garante que seu Troller, comprado há 3 anos na mão de um amigo, nunca será vendido. “É meu xodó. Não vendo nem troco. Ele vai ficar para meus filhos”. Ele é pai de Gabriel, de 12 anos, e de Gustavo, de 8 anos, que já o acompanham nas aventuras.

O amor do empresário pela Troller e pelas trilhas começou através dos amigos. “Eu participo de off road há 7 anos. No meio que sempre andei a galera tinha Troller, que é um ícone, tem um diferencial grande de força e potência, sendo extremamente confiável. Ele me atende bem: viajo, participo de eventos de off road, ando na lama, na duna e uso até para trabalhar”.

Ele, que também integra o Club do Troller Bahia, relembra as boas aventuras já vividas. “Fazemos trilhas de 3 a 4 vezes no ano. No final do ano passado, fomos para a praia do Saco, em Sergipe. É uma brincadeira bacana e cada trecho tem sempre uma atração. Em fevereiro deste ano, fizemos em Mangue Seco. No mês que vem, faremos na Praia dos Garcez, em Jaguaripe, ou então retornaremos em Mangue Seco”, diz. Para ele, “é triste ver o encerramento da Troller no Brasil”.

Tristeza vai além da Bahia

Jadiel Dallabrida em trilha com grupo de jipeiros (Foto: Arquivo Pessoal)

Se os jipeiros baianos andam tristes com a decisão da Ford, esse sentimento também é compartilhado por amantes da Troller em outros estados.

O consultor técnico Jadiel Dallabrida, 40 anos, de Rondonópolis (MT), também desabafa. “Fomos pegos de surpresa, porque, até então, ouvíamos rumores de que a fábrica teria um novo dono e eles falavam em restruturação das atividades, então não imaginávamos que iria acabar a Troller no país. Além disso, decepciona o fato de a Ford não ter dado a chance para que um outro dono continue essa venda. Esperávamos que tivessem mais zelo com seus jipeiros. Agora, ficaremos sem segunda opção de ter um jipe do porte da Troller no Brasil”, lamenta.

Segundo ele, que também faz parte de grupos de jipeiros, muita gente que quer adquirir um jipe está com receio de que faltem peças. “O mercado inflacionou, o diesel está subindo de preço. Uns estão se desfazendo do jipe com medo de não conseguir comprar peças, outros estão se desfazendo por conta do encerramento das atividades no país porque deixa a pessoa preocupada, por exemplo, com a questão da garantia”.

“Eu tenho um jipe 2007, que foi quando a Ford comprou a Troller. Eu consigo peças, pois é um mix de marcas que compõem o jipe, mas quem está querendo entrar no ramo do off road já fica assustado”, completa.

Ford

A fabricação do Troller T4 prosseguirá até o fim de setembro deste ano, na fábrica de Horizonte, no Ceará. Questionada pelo Toda Bahia como está a negociação com o sindicato para a realização dos desligamentos dos funcionários dessa instalação, a Ford informa que as negociações com o sindicato foram iniciadas esta semana e que nenhum desligamento será feito até que elas sejam concluídas.

A nota informa ainda que a Ford não irá vender a marca Troller nem os direitos sobre o produto. Segundo a Ford, isso está “em linha com o que está sendo feito com as fábricas de Taubaté e Camaçari”.

De acordo com a empresa, a Ford continuará presente ativamente no Brasil, “honrando todas as garantias e com ampla operação de vendas, serviços e peças de reposição para todos os seus clientes, incluindo os da Troller”.

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