Dos jipeiros baianos ao Taleban, modelos da Toyota fazem sucesso pela resiliência

Carlos Macedo

Não é incomum, nas imagens que chegam do Afeganistão, ver extremistas do Taleban se deslocando com suas armas em punho em veículos da marca Toyota. As imagens não trazem exatamente uma novidade. Antes ainda de assumir o poder, em 1996, o grupo extremista tem utilizado veículos 4×4 adaptados para o combate. Os preferidos são a picape Hilux e o SUV Land Cruiser, carros considerados resilientes, para usar uma palavra da moda. Ou seja, aguentam de tudo.

Analisando o histórico e as características dos modelos da Toyota, também adaptados e utilizados em outros conflitos no Oriente Médio, na África e até na América do Sul, é possível encontrar uma explicação para essa relação tão antiga, que transforma utilidade em preferência de gosto. A empresa japonesa é a preferida de muitos aventureiros adeptos do off road pelo mundo, inclusive no Brasil.

O advogado Guilherme Nüske, que mora em Salvador e faz da mecânica de carros 4×4 um hobby, é um profundo conhecedor da Toyota. Ele mesmo já foi proprietário de alguns veículos da marca e, por trabalhar para empresas de mineração, precisava adentrar a locais de difícil acesso por regiões da Bahia e do Piauí.

O advogado conta que a primeira grande vantagem da Toyota é fato de a marca possuir peças em, praticamente, todos os lugares do mundo. “É um veículo recomendado para fazer expedições pelo mundo, já que possui peças em todo lugar. Isso facilita o uso até em lugares mais inóspitos”.

Nüske explica que a marca tem uma linha de veículos específicas para uso em situações extremas, a exemplo de áreas de mineração, onde ele trabalhou, e também em locais de desastres e mesmo por exército, a exemplo do que ocorre em países da África. Para esses casos, é muito comum o uso da Land Cruiser.

“A questão principal não é estética ou velocidade, mas sim utilidade, a resistência e a longevidade do produto. Por isso, é muito comum ver veículos da marca das décadas de 1970, 1980 e 1990 em pleno funcionamento. Tem veículos que tem mais de meio milhão de quilômetros rodados”, diz o advogado.

Mundo afora

Carros da Toyota esperam turistas na Bolívia para passeio no deserto de sal. Foto: Alexandre Reis

Os adeptos de expedições pelo mundo ou e passeios trilhas off road contam com essa robustez e resistência da marca nipônica. Alguns realizam adaptações para rodar por áreas de acesso mais difícil e tempos de viagem mais longos.

Luiz Visedo, mais conhecido como Gringo no off road baiano, é um dos que teve uma experiência, ao lado de um amigo, com a Toyota para uma expedição ao Salar de Uyuni, o deserto de sal que fica Bolívia, próximo ao Atacama, no Chile.

“Quando fizemos a viagem, existia problema com combustíveis na região. Por isso, optamos por parar nossos carros 4×4, uma Tracker e uma TR4, e contratar um motorista, guia, cozinheiro, que, com sua Land Cruiser, nos levou durante quatro dias a conhecer o Salar de Uyuni. É um carro que, apesar de antigo, da década de 1980, ainda era muito bom”.

Visedo explica que a Land Cruiser utilizada na viagem, além de ser robusta, tinha um tanque de combustível extra adaptado de 200 litros e mais uma reserva de 60 litros. Esse tipo de adaptação também costuma ser feita pelo Taliban. “Isso nos proporcionou a tranquilidade que nossos carros a gasolina não tinham”.

Toyers do Brasil

A Band é um dos veículos prediletos dos apaixonados pela Toyota. Foto: Divulgação

Na Bahia, amantes da Toyota criaram um grupo chamado de Toyers do Brasil. O grupo, que tem um site, organiza passeios e trilhas na Bahia e até fora do estado. Os veículos prediletos dos proprietários da marca na Bahia são a velha Bandeirantes e a Sw4 – modelo que, mesmo nos casos mais antigos, continua valorizado no mercado de compra e venda.

“Tem gente que prefere até comprar as ‘Toyotas’ mais antigas porque elas têm menos componentes eletrônicos. Isso facilita na manutenção e para enfrentar obstáculos que envolvem trechos com água, por exemplo”, diz o jipeiro Carlos Magno, que integra o grupo.

Um dos destinos prediletos dos amantes da Toyota na Bahia é a Chapada Diamantina. Mas há ainda passeios programados para o Raso da Catarina, em Paulo Afonso, e as praias desertas da Costa do Dendê e do Litoral Norte.

Empresa se manifesta

A Toyota é uma das grandes fabricantes de utilitários do mundo e referência em tecnologia. A marca domina o mercado afegão, que é repleto de modelos japoneses de segunda mão, exportados, predominantemente de Dubai. Para além dos utilitários, um dos modelos que mais se vê circulando pelas ruas das cidades do país é o Corolla, incluindo todas as gerações do sedã médio.

É claro que o uso de veículos da marca por extremistas do Taleban não é apoiado pela Toyota. Antes mesmo da retomada do poder pelo grupo, há uma semana, a empresa já havia tomado medidas para dificultar que nova geração do Land Cruiser chegasse nas mãos de governos ou movimentos associados ao terrorismo.

Em nota enviada ao Toda Bahia, a Toyota informou que tem uma política rígida de não vender veículos a compradores em potencial que podem usá-los ou modificá-los para atividades paramilitares ou terroristas. A marca diz que tem procedimentos em vigor para ajudar a evitar que os seus produtos sejam desviados para uso militar não autorizado.

“A Toyota está comprometida em cumprir integralmente as leis e regulamentos de cada país ou região onde opera, incluindo o controle de exportação e as leis de sanções. Também exigimos que nossos revendedores e distribuidores façam o mesmo”, conclui a nota.

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